Solstício (novel) - Capítulo 02
River deu uma risada fria em vez de uma resposta. O motivo de buscar especificamente asiáticas ou pessoas mestiças de asiáticos era óbvio.
Belezas orientais, esse era o denominador comum entre as mulheres com quem Alessandro era conhecido por se envolver.
Embora não fossem numerosas, suas preferências eram consistentes. Uma bailarina japonesa, uma modelo de lingerie mestiça taiwanesa — todas as mulheres de Alessandro tinham olhos e cabelos negros. Dentro da organização, zombavam dele, dizendo que tinha “fetiche por asiáticas”. E Jonathan Spencer agora estava tentando acrescentar River a essa lista de mulheres.
Depois de um momento de hesitação, ele acrescentou, balançando uma isca tentadora na frente dela:
— Você, mais do que ninguém, deveria querer pegá-los.
Isso era verdade. Antonio Ranieri era o inimigo mortal de River, tendo assassinado seus pais. Nate deveria ter se juntado a esta operação também por causa de sua mãe falecida. Desde o início, a razão dos dois terem trilhado esse caminho era um vago e tolo desejo de vingança.
— Há alguma necessidade de hesitar? É uma boa oportunidade de recuperar seu distintivo.
Sim, isso também era uma oportunidade, de certa forma.
A possibilidade de River, que estava suspensa, participar de uma operação de grande escala como aquela era próxima de zero.
Mas Alessandro, aquele homem…
Ela não queria encontrá-lo dessa forma.
— Não há outros membros da organização que possamos abordar além do Alessandro? Existe a possibilidade do Antonio designar outra pessoa como seu sucessor?
— Não. Ele foi minucioso no treinamento do sucessor, e não parece provável que outra pessoa assuma o comando com facilidade.
— Damiano… E quanto a Damiano Giannini?
Ele é o membro mais velho na organização e um amigo de longa data de Antonio. O ¹consigliere pode ter alguma informação—
— Eu disse “não”.
Jonathan raramente resmungava, mas o fez ao ouvir o nome sair dos lábios de River. Cruzou os braços, com uma expressão frustrada.
— Damiano é esperto demais. Nos últimos anos, nenhum dos agentes que designamos para ele voltou vivo. Claro, Alessandro é ainda mais perigoso, mas é o único alvo que ainda não tentamos.
Em outras palavras, eles sequer consideravam mais tentar o outro lado. River, que fervilhava durante toda a conversa, cuspiu:
— Então você está dizendo que eu devo me aproximar do Alessandro e… vender meu corpo ou algo assim? Bajulá-lo e roubar informações dele?
— River…
— Cuidado com as palavras, Winstead.
— Cuidado porra nenhuma! Não é essa a verdade?! Vocês estão procurando uma mulher para abrir as pernas para aquele desgraçado!
Tristemente, ninguém negou essas palavras. Nate, que estava ouvindo em silêncio, simplesmente olhou para baixo, sem oferecer mentiras açucaradas dizendo que não era bem assim.
Jonathan, com a expressão endurecida de desagrado, finalmente concedeu.
— Para acabar com o fingimento, sim, é isso mesmo.
Como esperado, era “aquele” tipo de papel. Dizem que a vida é uma série de escolhas.
Mas o que se deve fazer quando todas as opções enlouquecem uma pessoa?
— River…
Nate chamou seu nome mais uma vez. Sua voz soou mais como um apelo do que persuasão.
— É verdade que queremos que você se aproxime do Alessandro. Mas vamos ajudá-la a escapar com segurança antes que vá longe demais.
— É mais fácil falar do que fazer. Quantas pessoas morreram durante o processo de fuga, mesmo depois de completar as missões com sucesso?
Além disso, o oponente é Alessandro. Um monstro que aniquilou sozinho uma organização inteira!
— Não estamos pedindo que você fique com ele vinte e quatro horas por dia. Não posso explicar em detalhes até que você concorde, mas…
Naquele momento, Jonathan olhou para Nate e balançou a cabeça. Era um aviso para não dizer mais nada. Afinal, River ainda era estritamente uma pessoa de fora até aceitar a oferta.
Mesmo assim, ela balançou a cabeça. Não podia aceitar essa missão.
— É isso que você pensa?
— O que você quer dizer?
— Você acha que estou hesitando só porque estou com medo?
Nate apenas a olhou com uma expressão confusa. Seus olhos pareciam perguntar se isso não era motivo suficiente, o que alimentou a raiva dela.
— Você sabe como aquele maldito bastardo e eu estamos ligados!
— Eu sei, mas—
— Mesmo sabendo, você está dizendo isso para mim?
River, finalmente chegando ao limite, elevou a voz, e só então os olhos verde-oliva de Nate vacilaram, confusos.
— Se fosse qualquer outra missão, eu teria aceitado de bom grado, não importa o quão perigosa fosse. Mas seduzir aquele bastardo… com o meu corpo?
— De todas as pessoas… você não deveria ter feito uma proposta dessas para mim!
O rosto dela corou de raiva. Eles não eram irmãos de sangue, mas achava que eram tão próximos quanto uma família. Acreditava que Nate, e ninguém mais, a entenderia…
— Desculpe, mas vou fingir que não ouvi isso.
Ela não estava realmente arrependida. Seus pais, no céu, também entenderiam essa decisão.
— Estou dizendo que recuso.
🌸🌸🌸
Naquela noite, River não foi direto para a cama, mas abriu uma lata de cerveja. Não gostava particularmente de álcool, mas precisava desesperadamente disso naquele dia.
“Existe alguma razão para você ter disparado seis tiros quando um ou dois teriam sido suficientes?”
A voz que a repreendera meses antes ressurgiu vividamente. Era como se este quarto tivesse se transformado na sala de audiências daquele dia.
Houve um incidente em que um viciado em drogas, levado ao limite, atacou uma creche. No processo, uma jovem professora da creche morreu, e River estava em um tenso impasse com o agressor.
“Atirar no suspeito depois que ele expressou sua intenção de se render é um caso claro de uso excessivo da força.”
‘Se render, o caralho.’ Isso é só um monte de besteira plausível. Ele nunca teve intenção de se render em primeiro lugar. Era apenas um truque para levar mais uma pessoa com ele.
River foi quem percebeu que o suspeito estava prestes a fazer sua última investida, e foi ela quem reagiu mais rápido no momento em que ele sacou a arma. Não havia espaço para pensar em mais nada. Apesar de evitar uma tragédia maior, a vida de River desandou a partir daquele ponto.
A mídia caiu em cima da presa com prazer, e seus colegas, que já não gostavam dela, também levantaram a voz. O motivo era óbvio, nem precisava dizer. Como não ressentir uma garota mestiça asiática que ousara ocupar o primeiro lugar e que nunca dava sequer um sorriso amigável em resposta às investidas sutis?
“River Winstead, você não tem mais nada a dizer?”
Não havia nada que River pudesse fazer na audiência. O resultado foi uma suspensão e um corte na aposentadoria. Chamavam de suspensão, mas, na realidade, sua carreira estava praticamente encerrada.
No dia em que voltou ao acampamento com apenas uma mala, o tio Ben abraçou River com força, sem fazer perguntas. Ela, que teimosamente se recusara a derramar uma única lágrima, finalmente desabou em choro pela primeira vez.
E agora, estavam pedindo que ela participasse de uma missão por ser a única candidata adequada?
— Vocês só podem estar brincando comigo.
River encarou sem expressão o ventilador de teto girando acima. Conforme suas bochechas ficavam mais quentes da embriaguez, as memórias daquele dia se tornavam mais claras.
“Sinto muito por não ter conseguido salvar seus pais.”
Essas foram as primeiras palavras que o tio Ben dissera à pequena River, que sobrevivera após um longo coma.
Há mais de vinte anos, o FBI obteve informações de que a Família Ranieri, que na época expandia rapidamente sua influência, estava desenvolvendo um novo tipo de droga.
Antonio, que não tinha medo de quebrar regras, aceitava não italianos na organização, desde que provassem suas habilidades e lealdade. Os pais de River, Soohyun e James Winstead, agentes capazes, foram para a Itália com a filha de seis anos para desempenhar o papel de um casal de assassinos de aluguel empregados pela Família.
“Não os culpe por terem levado você junto. Ambos não tinham parentes e… não teriam conquistado esse nível de confiança de outra forma.”
A operação foi bem-sucedida. O casal ganhou confiança suficiente para entrar e sair livremente da casa de Antonio, e um ano depois, até apresentaram o tio Ben como um jardineiro competente.
A missão perfeita teria terminado em segurança se Alessandro, que eles acreditavam ser um amigo, não tivesse aberto a boca.
“Antonio, aquele demônio, me disse que o filho tinha contado tudo a ele. Quem eram os agentes, para onde planejavam escapar… tudo.”
River ainda se lembra. 25 de dezembro, 18 anos atrás. O dia em que gritos gelados ecoaram em vez de alegres canções de Natal.
Enquanto sua mãe e River fugiam para o cais, seu pai capturado morreu arrumando tempo para que o tio Ben escapasse. A mãe e a filha, apanhadas pouco antes de embarcar no navio, foram arrastadas para o pátio da mansão Ranieri.
A mãe assassinada, Antonio entregando ao filho uma arma ainda quente. Essa foi a última cena que ela viu antes de seus olhos serem cobertos por um pano preto. Mesmo River, que não era fluente em italiano, ouviu claramente a única palavra de Antonio.
“…Atire.”
A tragédia foi pontuada por um único disparo.
Antonio ateou fogo despreocupadamente à mansão onde vivera por mais de uma década e foi embora.
O tio Ben, que estava escondido nas proximidades, resgatou a filha de seu colega, mas não pôde salvar sua esposa.
“Foi um assassinato disfarçado de acidente. Se Nate não tivesse estado visitando os vizinhos naquele dia, ele certamente teria…”
Aqueles que ficaram para trás tinham duas escolhas. Lutar para esquecer, ou jurar vingança. Benjamin Miller foi o primeiro. Escolheu se aposentar e envelhecer em um acampamento onde as moscas eram as únicas visitas. Mas…
— …Ha.
River não queria permanecer uma criança indefesa como naquele dia. Em vez de afundar em trauma como agora, queria superá-lo e fazê-los pagar por seus pecados. Mas, mas…
Os olhos azuis que ela viu pela última vez, o rosto pálido e endurecido, o tiro impiedoso, todos agarraram seu tornozelo e a arrastaram para baixo.
Para mais fundo no abismo.
Era amargo, mas ela tinha de admitir. River Winstead ainda estava presa ao passado.
Esse fato a enfurecia, e ela se odiava intensamente.
No fim, passou a noite em claro. Uma luz azul-pálida se infiltrava pelas frestas das persianas que cobriam a janela. O ar pegajoso e úmido era desagradável, mas a tranquilidade única da madrugada após a chuva organizou silenciosamente seus pensamentos complexos. No silêncio, River revisitou a determinação com que havia entrado neste caminho.
Para fazer pessoas como Antonio pagarem o preço.
Impedir que vítimas como ela fossem esmagadas por suas feridas e vivessem em dor.
Se possível, algum dia… pôr fim a esse rancor terrível.
O coração, coberto de feridas e medo, e o senso de propósito finalmente ergueram a cabeça. Sussurrando que este era o marco de sua vida.
Não havia hesitação na mão que pegou o telefone. A outra parte atendeu como se estivesse esperando, mesmo antes do sinal tocar algumas vezes.
Apesar do longo silêncio, a voz do outro lado do não a pressionou.
Como se já soubesse o que River iria dizer.
— Eu… aceito a oferta.
[Fico feliz que tenha pensado bem.]
A resposta concisa e calma de Nate pareceu encorajar River.
[Faça as malas, leve o mínimo possível. Vamos nos encontrar no Aeroporto de Fiumicino.]
A ligação foi curta. River, que desligou o telefone, tirou uma bolsa esportiva do armário. Um passaporte, roupas, tênis confortáveis e uma velha caneta tinteira que ela nunca usou foram colocados na bolsa, um por um.
Não havia motivo para adiar mais. Era hora de partir. Para encontrar seu amigo, seu inimigo e o homem que agora era seu alvo.
‘Alessandro, se você ia me trair, deveria ter feito isso direito.’
(Nota: No romance, o consigliere é o conselheiro direto do chefe, alguém de extrema confiança que atua como consultor estratégico e representante em reuniões importantes, tanto dentro da própria organização quanto com outras famílias do crime. Ele é um confidente próximo, comparável a um estadista, porém inserido no universo criminoso.)
Continua…
Tradução: Elisa Erzet