O Marido Malvado - Capítulo 93
Um soldado certa vez serviu sob o comando de Cesare — um homem de talento e diligência notáveis, que ascendeu rapidamente nas fileiras, conquistando reconhecimento por suas habilidades dentro do exército. Cesare o favorecia, e havia até rumores de que ele logo seria condecorado cavaleiro pelo próprio Cesare.
A natureza gentil e bondosa daquele homem fazia com que fosse querido por todos, inclusive pela pequena Eileen, que o admirava profundamente. No entanto, um dia, essa figura promissora desapareceu sem deixar vestígios.
Quando Eileen, ainda muito novinha na época, perguntou sobre seu paradeiro, todos afirmaram não saber de nada. Como criança, ela tinha poucos meios de descobrir a verdade.
O soldado nunca mais foi mencionado, e Eileen, inicialmente confusa, acabou por deixá-lo desaparecer de seus pensamentos. Só muito tempo depois soube de sua morte. Disseram que ele havia cometido um crime e recebido a punição apropriada.
Eileen nunca descobriu a natureza de seu crime, mas, sabendo que o próprio Cesare o havia punido, presumiu que devia ter sido algo grave. A morte dele deixou uma marca arrepiante nas emoções de Eileen, plantando uma semente de medo — a de que ela própria pudesse um dia ter um destino semelhante.
Ele foi alguém muito mais competente do que ela, e ainda assim, apesar de seus talentos excepcionais, fora apagado do mundo de Cesare como se nunca tivesse existido. Mesmo agora, como arquiduquesa, Eileen sentia que sua posição era instável, não muito diferente da dele. O medo persistia.
E se, como o soldado, ela permanecesse alheia ao perigo iminente até que fosse tarde demais? E se desaparecesse sem chance de se explicar?
Não era a ideia de morrer por Cesare que a aterrorizava. O que verdadeiramente a assustava era a possibilidade de se tornar uma existência esquecida, apagada da sua vida por completo, como se nunca tivesse tido importância. Temia a perspectiva de um fim desonroso.
A ansiedade que a corroía explodiu com a notícia do destino de Lucio. Ela não ouvira uma única palavra sobre o ocorrido até ler o jornal da manhã, o que tornava o choque ainda mais brutal.
A dura realidade despedaçou o devaneio onírico que ela mantivera como arquiduquesa. Pensamentos negativos começaram a espiralar, escurecendo a cada volta.
Será que seu veterano realmente tentou roubar sua pesquisa?
Eileen cerrou os punhos, lutando para conter a dúvida que crescia dentro de si. As unhas cravaram-se em suas palmas enquanto relaxava lentamente as soltou e falou:
— Senhor Senon…
Senon permaneceu em silêncio durante toda a sua turbulência interior, e Eileen ofereceu um sorriso amargo diante da ausência de resposta.
Os cavaleiros e soldados sempre haviam cuidado e gostavam de Eileen, e os valorizava da mesma forma.
Mas, no fim, eles eram cavaleiros e soldados de Cesare. Se tivessem de escolher, escolheriam Cesare. Um gosto amargo tomou sua boca.
— Eu só… pela primeira vez, gostaria de ter sido informada, nem que fosse um pouco. Afinal, ele era um convidado que eu havia trazido…
Mesmo enquanto falava, seu coração doía. Seu nariz formigou, e seus olhos queimavam com lágrimas que ela lutava para conter.
— Sempre me sinto tão impotente, sempre no escuro… Mas nunca consigo dizer essas coisas a Sua Graça…
Ela fez uma pausa para regular a respiração, forçando um sorriso ao tentar minimizar o momento, como se não tivesse importância.
— Acabei deixando as coisas desconfortáveis para você, senhor Senon. Não foi minha intenção. Só estava sendo um pouco infantil porque me senti chateada.
Apesar de seus esforços, uma lágrima escorreu pela bochecha de Eileen. Ela a enxugou apressadamente com o dorso da mão, pressionando como se pudesse conter o fluxo. Ainda assim, as lágrimas continuaram a cair, incessantes. Não parecia dar certo.
— Desculpe… sinto muito, Senhor Senon.
Enquanto Eileen fungava e se desculpava, Senon — que até então mantivera uma postura rígida e formal — estremeceu. Ele vasculhou o casaco em pânico, com movimentos tão desesperados que parecia prestes a rasgar os bolsos. Após algum esforço, finalmente encontrou um lenço e o entregou a Eileen.
Eileen pegou um guardanapo da mesa e o lenço de Senon, usando um para cada olho. Com o rosto meio coberto pelos objetos, pediu desculpas novamente, a voz anasalada pelo choro. Senon falou em tom grave.
— Vossa Graça… a culpa foi minha…
Mas não havia razão para Senon se desculpar. Quando Eileen disse para não fazer isso, Senon respondeu com ainda mais tristeza.
— Eu devia ter previsto que isso a abalaria. Eu estava tão empolgado com a comercialização do medicamento que você criou que fiquei completamente envolvido…
Senon não conseguiu esconder sua angústia ao ver Eileen tentando se recompor. Tendo servido Cesare como soldado por tanto tempo, os cavaleiros haviam desenvolvido uma mentalidade bastante diferente da das pessoas comuns. Em suma, eram muito mais indiferentes.
Seu senhor, Cesare, não era apenas indiferente, era desapegado. Naturalmente, seus cavaleiros haviam assimilado parte dessas características.
De sua perspectiva, suas ações eram lógicas. Eles simplesmente lidaram com um criminoso e, no processo, aproveitaram a situação a seu favor.
Para garantir o sucesso da missão, o sigilo precisava ser mantido, razão pela qual Eileen não fora informada. Podia parecer extremo, mas acreditavam que explicar tudo depois faria com que ela compreendesse.
No entanto, refletindo melhor, Eileen sequer sabia qual crime Lucio cometera. Ela sempre o vira como um veterano gentil e bondoso.
Senon percebeu tarde demais que esta era a primeira vez que lidavam com alguém próximo a Eileen, e foi aí que erraram.
— Se Diego estivesse aqui, teria me impedido.
Diego era o mais empático dos cavaleiros, aquele que melhor compreendia os sentimentos alheios. Se estivesse presente, teria sugerido uma abordagem mais cuidadosa.
Infelizmente, Diego estava em viagem de negócios fora da capital. Sentindo sua falta mais do que nunca, Senon se agitou e abriu a boca, mas nenhuma palavra saiu.
Apesar da fama de inteligente, a mente afiada de Senon era inútil naquela situação. Ele conseguia pensar em muitas coisas para dizer, mas tudo soava como desculpa. Tentando desesperadamente consolar Eileen, acabou falando sem pensar:
— Vou falar com Sua Graça sobre isso, ainda hoje.
Ele não fazia ideia do que diria, mas ver Eileen em lágrimas doía tanto que as palavras escaparam.
Eileen simplesmente balançou a cabeça. Ela baixou gentilmente o lenço e o guardanapo que cobriam seus olhos marcados pelas lágrimas. Seus olhos, agora vermelhos e inchados, fitaram Senon diretamente enquanto ela falava.
Eileen apenas balançou a cabeça. Baixou delicadamente o lenço e o guardanapo que cobriam seus olhos marejados, agora vermelhos e inchados, encarou Senon enquanto ela falava:
— Não.
Seria infantil deixar que outra pessoa transmitisse sua mensagem. Eileen lançou um olhar ao jornal sobre a mesa, detendo-se por um instante nas palavras La Verita. Após alguns segundos de reflexão, tomou sua decisão.
— É possível… encontrar Sua Graça agora?
🌸🌸🌸
Senon escoltou pessoalmente Eileen até a residência onde Cesare estava. Embora ela repetisse que compreendia o quão ocupado o homem estava e que a presença de Senon não era necessária, ele insistiu em acompanhá-la, então acabou aceitando a contragosto.
Durante todo o trajeto, Senon suava nervosamente, tentando confortar Eileen e aliviar seu sofrimento. Sua culpa excessiva acabou fazendo com que fosse Eileen quem precisasse consolá-lo.
— Chegamos…
Senon murmurou fracamente ao parar o carro. Eileen, saindo do veículo com a assistência de Senon, congelou por um momento. O lugar era dolorosamente familiar.
Ela estivera lá apenas uma vez antes, mas a memória estava indelevelmente gravada em sua mente.
Era a casa que visitara pouco antes de Cesare partir para o Reino de Kalpen. Foi a última vez que tentou vê-lo. Apesar de suas batidas desesperadas, nenhum som ou resposta viera de dentro…
Quando aquelas memórias vívidas ressurgiram, a coragem que reunira pareceu murchar de imediato. Como se a porta fosse permanecer fechada outra vez e, mesmo que implorasse para falar com o homem, temia que ele não se desse ao trabalho de recusar.
O rosto de Eileen empalideceu levemente. A velha porta de madeira rangeu ao abrir, suas dobradiças enferrujadas protestando. Eileen olhou fixamente para a porta, que ela pensara que permaneceria fechada para sempre.
Cesare apareceu, a expressão impenetrável ao atravessar a entrada. Seus olhos se arregalaram levemente de surpresa ao ver Eileen. Era evidente que não esperava sua visita. Ainda assim, um leve sorriso logo surgiu em seus lábios ao chamar seu nome.
— Eileen.
Ao se aproximar, seu sorriso desapareceu ao notar o rostinho marcado pelas lágrimas. A preocupação marcou o semblante do homem.
— Você estava chorando?
Naquele instante, as lágrimas que Eileen mal conseguira conter retornaram com força, transbordando mais uma vez.
Continua…
Tradução: Elisa Erzet